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Atualizado em 22.05.2017 às 06:02

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A mulher e a lei

Mulher protegida não morre

Publicado em 22.05.2017, às 06h01

Atualizado em 22.05.2017, às 06h02

Mais de 90% das mulheres que foram mortas por feminicídio, nunca denunciaram
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Por Gleide Ângelo

Caros leitores,

No artigo de hoje falarei sobre um tema extremamente importante e que pode salvar a vida de muitas mulheres que sofrem violência doméstica e familiar, a proteção. Nós escutamos muitas mulheres falando que têm medo de denunciar a violência em uma delegacia de policia, porque o agressor sempre diz que irá matá-la. Com isso, muitas mulheres ficam com medo e se submetem durante anos a sofrer violência doméstica.

Na realidade, os índices estatísticos de feminicídio demonstram que na maior parte das mortes, as vítimas nunca registraram um boletim de ocorrência. Mais de 90% das mulheres que foram mortas por feminicídio, nunca denunciaram. Isso comprova que a mulher que denuncia está protegida pelos Mecanismos existentes na Lei Maria da Penha e pela Rede de Enfrentamento à Violência.

4 mulheres vítimas de violência

Conversei com quatro mulheres vítimas de violência doméstica para saber como cada uma delas agiu para mudar de vida e se afastar com agressor. Chamarei as mulheres pelos nomes fictícios de LUCIANA, CARLA, PATRÍCIA e JOANA. Todas as quatro tinham algo em comum, o medo de denunciar. Foi unânime quando disseram que pensavam que morreriam depois da denuncia, pois o agressor sempre as ameaçou de morte, caso fossem a uma delegacia. Porém, entre uma delas, há uma que nunca denunciou o agressor e continua sofrendo violência e agressões, ela disse que não tem coragem de denunciar, tem muito medo. Vamos conhecer a atitude e o que cada uma delas pensa sobre o que sofreram.

LUCIANA: “Sofri todos os tipos de agressões durante 10 anos e sempre fui ameaçada de morte caso denunciasse. Hoje tenho 34 anos e estou livre do cativeiro que vivia. A minha decisão de denunciar começou quando uma grande amiga minha me levou a um Centro de Referência. Lá fiquei fortalecida e comecei a enxergar que eu não precisava continuar sofrendo e que o meu marido não era dono da minha vida para me maltratar da forma que quisesse. Tive coragem e fui à delegacia registrar o boletim de ocorrência e pedir medida protetiva. No início tive medo que ele me matasse, mas foi o contrário. Depois disso, ele nunca mais me procurou, com medo de ser preso”.

CARLA: “Foi muito difícil tomar a decisão de denunciar. Sofria todo tipo de humilhação e violência física, até o dia em que minha mãe me disse que iria acabar mandando fazer uma besteira com meu marido, se ele continuasse me batendo. Fiquei com medo que minha mãe acabasse fazendo algo pior e se prejudicasse. Isso me deu forças para tomar a atitude de deixa-lo e fui morar com minha mãe. Não adiantou, ele continuou me perseguindo e me agrediu no meio da rua. Com isso, eu vi que não tinha outro caminho a seguir, apenas o da denuncia. Fui à delegacia com minha mãe e registrei a ocorrência, pedindo também as protetivas. Ele foi chamado na delegacia e mudou totalmente. Já pediu para voltar diversas vezes, mas não aceitei. Ele nunca mais me procurou e me sinto segura porque se ele descumprir a medida vai preso, e sei que ele tem medo de ser preso”.

PATRÍCIA: “Tenho 27 anos e aguentei 03 longos anos de agressões. Nunca me senti tão humilhada. Meus pais nunca me bateram, e estava permitindo que um estranho me agredisse. Sempre tive essa consciência, mas tinha muito medo. Quando eu dizia que iria embora, ele sempre ameaçava matar os meus pais, e isso me apavorava. Sempre tive os cabelos longos e bem tratados. Um dia, ele me puxou pelos cabelos, pegou a tesoura e cortou em cima dos ombros. Foi a gota d’água. Se continuasse com ele, teria certeza que ele me mataria. Tive coragem e fui à delegacia denunciar e pedir as medidas protetivas. Ele ainda foi atrás de mim e descumpriu as medidas. Fui novamente à delegacia dizer que ele estava descumprindo. Com isso, a juíza determinou que ele usasse tornozeleira eletrônica por seis meses. Tomei conhecimento de que ele tinha muita vergonha da tornozeleira e passou os seis meses sem sair de casa para ninguém ver. A partir daí ele nunca mais me procurou, vivo em paz e me sinto segura, pois sei que ele jamais vai querer colocar aquela tornozeleira novamente.

JOANA: depois que JOANA ouviu atentamente os depoimentos de LUCIANA, CARLA e PATRICIA, começou a chorar de forma descontrolada, como alguém que pede socorro. Esperamos ela colocar toda a angústia para fora para que pudéssemos conversar. Quando se acalmou, JOANA narrou, “não aguento mais, eu quero morrer. Faz 12 anos que sou humilhada e apanho do meu marido. Ele grita comigo na frente de todo mundo e quando ele chega em casa me espanca. Já o deixei algumas vezes e fui para casa da minha mãe, mas ele invade a casa da minha mãe, grita comigo e com ela, dizendo que irá nos matar se eu não voltar para casa. Tenho 03 filhos pequenos e sempre volto com medo. Ele disse que não tem medo de ninguém, nem da polícia, e que até os policiais ele mata. Por favor, me ajude”.

Esses foram os depoimentos de quatro mulheres vítimas de violência doméstica. Se vocês observarem o que falei no início, é exatamente dessa forma, quase todas as mulheres são ameaçadas de morte pelo agressor. Eles dizem que matarão elas e toda a sua família se elas os deixarem. Com as quatro mulheres que conversamos não foi diferente, todas as quatro foram ameaçadas de morte. Porém, se analisarmos os casos, as três mulheres que denunciaram conseguiram se libertar da violência e dos agressores. A única que não denunciou, continua sofrendo violência e pede socorro.

É exatamente isso o que acontece no dia a dia, as mulheres que denunciam e pedem proteção, não morrem. Elas conseguem frear o processo da violência que vai aumentando e termina com a morte. No depoimento de PATRÍCIA, vimos com muita clareza quando ela disse que depois que o agressor a puxou pelos cabelos e os cortou pelos ombros, ela viu que o próximo passo seria a morte. Se ela não tivesse denunciado, talvez hoje ela estivesse morta. Ela viu de perto que o único caminho era pedir proteção à polícia.

Amiga, se você está sofrendo qualquer tipo de violência doméstica e está sendo ameaçada de morte pelo agressor, só tenho uma coisa a te dizer, você não morrerá se denunciar. É exatamente o oposto, você morrerá se não denunciar. O exemplo dessas mulheres é o que ocorre na realidade. Quem tem proteção se liberta do sofrimento e continua sua caminhada em busca da felicidade. Faça como LUCIANA, CARLA e PATRICIA, tome uma atitude e denuncie. No caso de JOANA, fomos com ela ao Centro de Referência da Mulher, onde ela está tendo acompanhamento dos profissionais do psicossocial. Com o fortalecimento, ela tomará a atitude de denunciar e se libertar. É exatamente isso o que você deve fazer. Se você estiver fragilizada, peça ajuda a amigos, familiares, vizinhos. Você não pode continuar sofrendo violência. Você é uma mulher forte, qualificada, com objetivos e sonhos, e não precisa de ninguém te humilhando e te agredindo. Só conviva com alguém que te ame e te respeite. Você ainda tem um longo a caminho a seguir na vida, então escolha seguir esse caminho com amor, força e alegria. Deixe tudo o que passou para trás. Escolha ser feliz.

MULHER PROTEGIDA, NÃO MORRE !!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA VIOLENCIA CONTRA A MUHER:

» Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010

» Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485

» Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008

» Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107

» Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187

» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180

» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo) - 190 MULHER

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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